quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

O Clube (El Club)

Poucas coisas me dão mais medo do que aquelas pessoas que confessam alguma brutalidade como a firme convicção de que estão fazendo o que tem que ser feito, que Deus (ou quem seja) os colocaram ali precisamente para isso. Há razões para justificar qualquer feito, qualquer crime, eles dizem. Cada um busca sua própria moral, dentro da faixa de opções que confundem os conceitos do bem e do mal, para aliviar sua consciência e poder viver consigo mesmo. E a religião tem sido, sem duvida, a justificativa ‘perfeita’ em toda a história da humanidade. A igreja católica, a mesma que várias vezes tem sido alvos de diversos escândalos por dar proteção a vários padres que realizam praticas indecentes, sempre pela salvação e a boa imagem de um bem maior, claro, a igreja em si. Quantas atrocidades se cometem em nome da religião? Pablo Larraín coloca a resposta na tela da forma mais desagradável e perturbadora possível, destilando inteligência, sarcasmo e claustrofobia. Se fosse descrever o filme em uma palavra, seria angustia. Desde o primeiro plano, com esses acabamentos difusos, ambiente húmido, névoa constante e frio; incomodando imediatamente o espectador. Sensação que contrasta com a clareza que os fatos são resolvidos e o estilo de diálogos, sempre muito direto. Tudo com um ritmo pausado, que te vai levando pelos acontecimentos que ocorrem entre 4 padres e 1 ‘freira’ que estão reclusos numa casa, num vilarejo costeiro do Chile, onde fazem suas penitencias secretas pelos crimes cometidos. Eles procuram suas própria justificação, mas Larraín não se envolve em julgamentos morais, não apresenta discurso de nenhum tipo, apenas expõe. E o que mostra é o inferno com vista pro mar. “El Club” é um dos filmes mais assustadores que já vi, sem gritos, sem fantasmas, com toques inesperados de humor e sarcasmo que o tornam ainda mais preocupante. O terror esta presente na forma mais brutal, mas terrível: com as pessoas e suas misérias. Gente de carne e osso, que se deixaram levar por uma moral perturbadora e aí cada qual que emita seu julgamento. Oxalá, “Spotlight – Segredos Revelados” tivesse a coragem deste filme que não esconde nada e mostra um mundo cruel, sórdido e infelizmente verdadeiro.

domingo, 27 de setembro de 2015

Eu, você e a garota que vai morrer! (Me, Earl and the dying girl!)

Alguma vez já se perguntou qual seria o resultado de um filme que reuniria a faísca cômica de Edgar Wright, a extravagância colorida de Wes Anderson e o drama cruel de Clint Eastwood? Bom, talvez ninguém quisesse ver um filme como esse, mas a boa noticia é que também não faz falta. “Eu, Ear e a garota que vai morrer” é sem duvida, um dos melhores filmes do ano e com toda certeza estará no meu top 10 do ano. O encarregado do polimento de semelhante diamante ´Alfonso Gómez Rejón enquanto Thoman Mann, Olivia Cooke e RJ Cyler são os três jovens protagonistas que dão brilho e carisma, com uma ponta da preciosa Connie Britton. A história gira em torno de Greg, um adolescente desajustado e complexado po suas limitações auto-impostas que, em seu ultimo ano do ensino médio, se encontra na dantesca tarefa de achar seu lugar no mundo. Seu amigo, o colaborador, é Earl, com quem compartilha uma paixão profunda pelos grandes clássicos do cinema. Tudo na sua vida é monótono e rotineiro e nada e ninguém parece capaz de mudar isso até que obrigam a Greg visitar uma companheira de classe que está com leucemia. Como disse anteriormente, o diretor mostra coragem e confiança não só ao nos apresentar os personagens e coloca-los em situações que possam se desenvolver e conectar-se com o publico, mas também insuflando oxigênio com uma estética particular que às vezes lembra Wes Anderson (“Grand Hotel Budapest”). A duração é ótima e nenhuma cena esta fora do lugar, tem uma edição primorosa e contem numerosas alusões ao cinema que os cinéfilos se simpatizarão. As atuações são surpreendentes e todos atores enchem a tela. A fotografia é origina e brinca com planos e posições da câmera. Em conclusão é uma SURPRESA, um daqueles filmes que passa no radar por sua aparente simplicidade mas surpreende pela narração sincera, humano e realista sobre a vida de uns adolescente que se unem pelo capricho do destino, como um câncer que sera um gatilho que formara um vinculo profundo e duradouro. A sequencia final é uma das melhores que vi nos últimos anos.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Ela (Her)

“Her” não é apenas um filme, é muito mais importante que isso. É um experimento social que aborda o ser humano e o mundo tecnológico que vive. Spike Jonze saca da cartola uma ideia brilhante e converte em um dos melhores roteiros do cinema recente. De uma maneira original e inteligente ele fala do amor e do desgosto. No entanto, estes temas são apenas a superfície do que será explorado. Seu objetivo é ir mais longe, é medir a capacidade sensorial do ser humano e mostrar como este vai evoluindo em seu ambiente e as mudanças que isso produz. Estamos num cenário teoricamente futurista. Digo teoricamente, porque o mundo atual que vivemos já é quase monopolizado pela tecnologia e isso nos faz acreditar que se trate de um futuro bem próximo. Conhecemos a Theodore, um homem que trabalha escrevendo cartas de amor à outras pessoas e que separou de sua esposa recentemente. Theodore decide comprar um sistema operacional moderno que se adapta aos gostos e personalidade do usuário. Diante disso, nos perguntamos se a tecnologia promove a solidão ou ajudar a superá-la. É curiosa a primeira pergunta que o SO faz: ‘você é social ou antissocial?’ Aos poucos vai estabelecendo uma relação com Samantha (a voz do SO), até que finalmente se apaixonam. Poderia um humano se apaixonar por um SO ou vice-versa? Pode parecer uma pergunta maluca, mas depois de assistir ao filme eu acho que quase todos teremos a mesma opinião. Spike Jonze me convence fortemente. A ideia de ‘querer’ está na mente, lembranças, sentimentos e sensações que vai surgindo em nós. É o que faz experimentar em alguém, seja inteligência artificial ou humana. Tudo se resume na forma que pensamos sobre a maneira como você ver seus atos, seu comportamento com a gente, suas coisas. No faz falta um corpo para transmitir ou receber sensações. Tentarei explicar. Deixamos de amar uma pessoa quando ela morre? Claro que não e não tem corpo. Então porque ainda amamos? Pelo já citado, tudo está na mente, memórias e sensações experimentadas. Pode Theodore amar Samantha sem ela ser real? O que é real e irreal? Não é real a felicidade e vontade de viver que Theodore tem depois de conhecê-la? Não é real o sexo que ambos tem? O sexo transcende além do físico, do palpável. Vai bem mais além, é como ficar longe de tudo e estar mentalmente com quem vê deseja e onde você deseja. Poderia ser resumido em: “Se te faz sentir, é real” Depois temos a questão da evolução do ser humano no mundo e no seu ambiente que vive. Samantha graças a Theodore conhece o mundo humano, cresce como ser, não está programada para isso mas experimenta e vive coisas novas. Ama Theodore, mas é precisamente esse desenvolvimento no mundo que faz que ela necessite outras coisas. Precisa seguir avançando, dar novos passos para encontrar novas sensações. E o melhor é que igual a Theodore, ela sabe como. O desfecho pode parecer confuso mas existe uma mensagem clara no filme. Por reflexões como a do final o roteiro de “Her” merece todos os elogios possíveis. Da trilha sonora melhor nem falar, é capitaneada pela excelente banda “Arcade Fire” e a sequência de Joaquin Phoenix com “The Moon Song” ao fundo (no impagável momento ukelele) é a essência infinita da vida, o pico da felicidade efervescente e fugaz. Joaquin Phoenix recebe um dos melhores papéis em sua carreira e rouba nosso coração com sua personalidade. O bigode, as doces palavras e um olhar tímido por baixo de um par de óculos conseguem que nós entregamos a ele por completo. Há intimidade e melancolia em seu personagem. Em uma palavra, cativante. Scarllet Johansson está fabulosa. Faz seu melhor papel desde “Lost in translation”. E tem momentos no filme que aparece uns planos da cidade de Los Angeles que lembram a Tóquio do filme citado. Scarllet é outra metáfora do que é real e não. É necessário que um ator apareça na tela para fazer um bom papel? Aqui fica claro que não porque sua bela, sugestiva e sexy voz nos faz imaginar cada momento. Fantástica conexão da atriz com seu personagem. Amy Adams apesar de ter um pequeno papel, está ótima. É uma atriz com nível altíssimo. A verdadeira amizade que tem com Theodore e o apoio que lhe dá é possível sentir. Uma adorável interpretação que fecha com uma bela cena final. Dois seres melancólicos, solitários e feridos sentam no topo de um arranha-céu olhando o horizonte. Eles já encontraram a si mesmo, já se perdoaram e agora podem olhar para o futuro.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Ninfomaníaca (Nynphomaniac)

No começo de “Funny Games”, uma família de classe alta volta para sua casa entre campos verdes, operas e jogos até que a harmonia é quebrada e a música muda para advertirmos que tudo se transformará em um amargo pesadelo. No caso de “Ninfomaníaca” também acontece algo assim. Não existe musica celestial, somente sons da rotina de um bairro. No entanto, estes simples ruídos desaparecem igual que no jogo musical do filme de Haneke, para entrar à música de Rammstein. Em ambas as obras entramos numa atmosferas de dilemas, duvidas e descobrimentos em que o espectador é forçado a participar ou abandonar a sala. Nem Lars Von Trier, nem Michael Haneke permitirá que ninguém permaneça indiferente. A partir daí segue uma série de diálogos absolutamente fascinantes que nos vão mostrando os medos e obsessões do autor. Destacando um dos dialogo, o que incide sobre Edgar Allan Poe. Igual que ao outro gênio da literatura de horror, H. P. Lovecraft, Poe desenvolve todo um universo baseado no mais profundo medo do ser humano. A herança e a influência dos antepassados no nosso comportamento futuro pode ser visto em quase todas as histórias de ambos autores e, por isso, é tão notável que o tempo em que Lars Von Trier fala do escritor tem a ver com os últimos dias que Joe passa com seu pai moribundo. Os poucos laços que unem uma pessoa além do desejo parecem desaparecer. Apesar de tudo, pouco a pouco veremos que Joe é capaz de criar novas relações cujo resultado em muitos casos ainda é uma incógnita. A personagem Joe jovem tem algo da prostituta que nos apresentou François Ozon em “Jovem e Bela”. Como ela, Joe avança por um caminho de autodescoberta que se deve definir entre seus limites e os tabus externos. No caso de “Ninfomaníaca” a história vai um pouco mais longe, já que o descobrimento se une ao julgamento moral de uma Joe envelhecia e no fundo do poço que recorda sua juventude. Se em “Jovem e Bela” o encontro final com a mulher de um dos seus clientes era o único ponto de vista adulto onde podemos ver ou imaginar os pensamentos futuros de Isabelle (a protagonista), na obra de Lars é a própria Joe que mostra sua visão com respeito ao passado. Nas interpretações não se pode mais que elogiar, em absoluto, todo o elenco do filme. Stellan Skarsgård, colaborador regular de Lars mantém a ambiguidade entre conservador e voyeur. Uma Thurman e Christian Slater, sem dúvida, com suas melhores interpretações nos últimos anos e Shia LaBeouf ignora, por fim, seu eterno papel de herói impoluto de Hollywood. Por último o duo Gainsbourg – Martin, onde reside a força e a credibilidade do filme, é impecável. Os personagens femininos de Lars mostram uma aparente debilidade, em ocasiões por questões físicas (como em Dançando no Escuro), psicológicas (Anticristo), morais/religiosas (Ondas do Destino) ou pelo simples desamparo (Dogville). No entanto, sob suas carências sobrevivem forças muito mais relevantes que apresentam como reflexões do realizador dinamarquês. Neste sentido, “Ninfomaníaca” não só mantem seu trabalho com os personagens femininos mas também inclui os jogos simbólicos que experimentou em sua comédia “O Grande Chefe” e a reflexão política citada em “Europa”, sobre o futuro moral da humanidade.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Ilha do Medo (Shutter Island)


Dependendo do amor que poderá ter por Martin Scorsese, com a visualização de Shutter Island, você poderá tirar três conclusões bastantes diferentes. Se você pensa que o diretor nova-iorquino esta supervalorizado, com esse filme reafirmara sua posição. Se esta no grupo que pensa que a melhor época de Scorsese já passou, também será bom ver-la e assim relembrar aqueles tempos que ele rodava filmes como Taxi Driver ou Touro Indomável. Se ao contrario, você acredita que Scorsese é um craque capaz de converter em ouro tudo que toca, então você tem duas opções, pensar que até os maiores tem o direito de cagar uma vez ou aceitar a máxima que, os peidos de Scorsese cheiram a flores, coloca uma venda nos olhos e declama aos quatro ventos que Shutter Island é uma obra prima. Se vos, estas entre o ultimo, lamento dizer que o peido dele tem o mesmo cheiro que o resto dos mortais, as vezes pior.

Dizem que o cinema do nova-iorquino é essencialmente formal e que cada um de seus novos filmes é um experimento no qual a historia é tão importante como a forma de contar-la. No entanto, o que salva do artificial é sua paixão pelos personagens, tendo assumido, que sem eles não há bom cinema. Muito bem, como teoria me parece genial, o problema é que na prática ele patina. Scorsese reúne diversas imagens supostamente perturbadoras que não passam, no melhor dos casos, de desconcertantes, mas na direção errada. Vamos lá, o que se tem a impressão é que Scorsese se meteu a ser David Lynch e não saiu muito bem no experimento. Uma decepção total.

E a coisa não melhora se tentamos apreciar a historia e os atores. Estamos diante um folhetim de detetive em que dois agentes federais vêm a uma remota ilha na qual se encontra um hospital psiquiátrico para investigar o desaparecimento de uma assassina ali reclusa. Até ai tudo bem, mas como a coisa vai desde as formas inescrutáveis da mente humana, enquanto o protagonista é confrontado com o caso, também enfrenta seus demônios interiores. E isso justifica toda uma serie de aparições, alucinações e demais parafernálias oníricas freudianas em forma de imagens, que é bastante ridículo. Tudo isto sofre o protagonista do filme, um patético Leonardo di Caprio. Maldita seja a hora que Scorsese trocou De Niro por ele. Será que não tinha nada melhor no mercado? E o pior é que nem mesmo desentoa no conjunto, já que seus companheiros de elenco Mark Ruffalo, Michele Williams e Emily Mortimer, são ainda piores.

Bom, o filme é ruim, um martírio mental que salva por algumas boas criticas e que foi filmado por um prestigioso diretor. Ou porque parece inspirado na serie que acabou recentemente Lost em algumas abordagens ou situações. Embora, devo ser justo e reconhecer que, provavelmente, toda culpa não seja dele. Já me falaram que a novela de Dennis Lehane na qual o livro se baseia é meia boca. Isso sim, ninguém colocou uma pistola na cabeça dele e obrigou a adaptar esse livro. E isso, para alguém que pretende articular-se com os clássicos em sua condição que trabalha sempre com roteiros alheios, não é um pecado menor. Como um dos poucos privilegiados que estão em posição de dar ao luxo de fazer filmes como queira.

Ah! E se você leu por ai essas declarações nas quais Scorsese confessa referencias em sua obra que vai desde Spellbound de Hitchcock, Cat People e I Walked with a Zombie de Jacques Tourneur, alem do cinema expressionista alemão dos anos 1920 ou da literatura de Kafka, não lhe faça caso. Scorsese esta é ficando louco (somente assim poderia explicar a versão da genial trilogia Internal Affairs que se tornou o legalzinho The Departed que concorre a ser um grande clássico do Domingo Maior da Globo, e ele negar).

Por fim, como LaSalle disse: ‘ A lenda fica no caminho do artista, Scorsese deve parar de tentar fazer obras de arte e tentar fazer bons filmes’. É isso.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Splice


Muito se espera deste filme e ainda mais já que estamos conscientes de quem esta por trás, Natalie de um lado e Del Toro de outro, mas fica por ai: muito barulho por nada. O filme não é ruim, mas quando estamos assistindo sempre esperamos algo mais e nunca acontece e ai é que esta o erro, poderia ser mais transgressivo sem cair no grotesco (bestialidade?).

No entanto, a historia até diverte e ainda mais quando o espectador percebe que o filme já não da mais nada. Em alguns momentos o diretor de Cube e Cypher é brilhante e demonstra o que ele vale, mas claro, esses momentos são poucos, se bem que tenho que destacar alguns planos realmente espetaculares, mas a historia é plana e linear e não destaca nem o bem nem o mal.

Aconselhável somente pra quando não tem nada pra assistir.


Nota 5

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Patrik 1.5 (Patrik, age 1.5)


Por um lado, eu aprecio a facilidade com que abordam a questão da adoção GLBT, que relativamente é bem aceita na sociedade sueca, apesar dos fanáticos que existem em todos lugares. Na verdade, o filme deixa claro que esse casal foi a ultima opção para a criança como se estivessem envolvidos em um leilão.

Sendo um filme mais cômico, que outra coisa, tem uma parte trágica importante, inclusive quase de denuncia homofóbica, mas que esta enfraquecida pela falta de profundidade com que aborda as questões importantes do filme: o casal gay, adoção por homossexuais, adoção de crianças com necessidades especiais, seus problemas específicos (que são muitos)...

O filme tem alguns pontos fracos, para poder criar a trama, que caem sobre seu próprio peso, não é crível que mandem um menino de 15 anos para um casal adotante, sem antes fazer uma prova de adaptação, ou mesmo que considerem que a adequação desse casal possa ser igual para uma criança de 15 meses como de 15 anos. Deste ponto de vista da adoção é um disparate.

O adolescente problemático é bastante turvo, e ele não é mais que uma caricatura do que poderia ser na realidade, se tivesse o currículo criminal, tal como proposto pelo roteiro, dificilmente poderia ter essa evolução, por alguns gestos de acolhimento e carinhos, numa pessoa com esse nível de desconfiança na vida e na sociedade. ‘Porque o amor nem sempre é suficiente. ’

Mas, é um filme fofo, redondo e que emociona às vezes, com um final feliz para agradar a todos. Se servir para jogar a semente da adoção GLBT, é uma opção não apenas legítima, se não, inclusive poder ser mais adequando para alguns meninos ou meninas, o filme ganha mais peso do que realmente tem. E que a moral, a ética e a capacidade de compromisso e de amor se encontram nas famílias que não tem e não pretendem usar a patente da normalidade ou da heterosexualidade.

Nota 7

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Quebrando Tdo (Kick Ass)


Kick Ass é uma colorida revisão dos mitos do comic desde um prisma sarcástico e irônico. E ele faz acompanhar de A a Z todos os clichês dos filmes de super heróis, desde o pária social convertido em justiceiro mascarado, aos amores impossíveis, as nêmeses que surgem quase por geração espontânea. O resultado não só engole como chuta traseiros de superproduções maiores em seu próprio território.

Vaughn veste violência estilizada e sarcástica do show, apelando ao mesmo tempo tanto à cumplicidade dos fãs de comics como ao espectador alheio do mito de super herói. Kick Ass oferece maneiras diferentes para satisfazer todos os públicos, mas pede em troco que aceitem a violência divertida que faz gala de um filme protagonizado, definitivamente, por adolescentes que estão no colégio e enfrentam assassinos impiedosos a sangue frio.

O resultado é um filme mais exigente do que parece, mas que sabe recompensar o espectador que aceitas as regras com quantidade suficiente de espetáculo e diversão. Fornece bons personagens, não saturados com ruído desnecessário e tem um senso de diversão e ousadia grotesca, como ‘Kill Bill (com seu uso humorístico de violência selvagem), não é apto para todos. Sem falar que exala verdadeiro amor aos comics de super heróis, que respeita e ama com ardor incomum.

O filme suaviza e aporta certa delicadeza em alguns momentos mais cruéis do material original, mas é sempre em favor dos personagens. Precisamente neste ultimo aspecto destaca uma das melhores cenas do filme, aquela que Hit Girl entra as escuras no lugar onde estão sendo torturados os protagonistas, que culmina de forma dramática. Vaughn combina nesse momento violência hilariante e gore, drama e comédia de forma estranha e absolutamente emocionante, e logo depois disso prolonga o desfecho da historia acrescentando mais espetáculo e risos como fogos de artifícios.

Preste atenção à interpretação de Chloe Moretz, uma das pequenas protagonistas, e sua química com um Nicolas Cage que demonstra que sabe ficar em segundo plano. Mark Strong é um dos atores mais capacitados para exercer o papel de vilão dos últimos anos e Aaron Johnson não defrauda no papel mais importante de sua vida e também Christopher Mintz-Passe. Vaughn, Mesmo que não defina totalmente seus personagens e se envolva em seus sentimentos, esforça-se no bom caminho e cria situações emotivas e simpáticas que justificam a violência irônica e o conteúdo geek do filme.

Definitivamente, o filme não é adequado para paladares antigos.

Nota 10

A Ressaca (Hot tub time machine)


Este é um daqueles filmes que você não tem muito que dizer, especialmente porque eu duvido que valha a pena tentar estender umas linhas a mais em um filme cuja simplicidade não envolve mais mistério que o desfrute do disparate absurdo. Mas parecido com um grande show de comédia televisiva, esses 100 minutos de imagens são uma sucessão de idéias em vez de uma historia em sim, as idéias adornadas com muito humor negro e ácido, e em particularmente especial para a memória daqueles maravilhosos anos de 1980, especialmente para todos aqueles que tiveram alguma voz na década prodigiosa.

Sem dar muitas voltas poderíamos dizer que o filme é como o titulo original diz, tão estúpido como absurdo, e na que menos é a lógica do porque ou o sentido do como. Em suma, de uma simplicidade e leveza pateta que assusta, mas até aqui nenhuma objeção, pois, como em todas, já que da pra cobrir todo o bolo e é bem costurado, como brincadeira divertida não hesita em ignorar sua qualidade questionável como filme para elevar à categoria de filme com título fofo, algo assim dito de maneira pouco fina, um peido que gostamos de sentir o cheiro.

Deixando de lado a lógica interna do relato que não passa de uma brincadeira, e que brilha tanto por sua ausência que ao mesmo tempo nem sentimos falta, o filme apresenta uma variação da manjada viagem no tempo numa comedia sem responsabilidade de qualquer natureza, muito menos moral. Uma espécie de ‘De volta para o futuro’ pegajoso e ointentista para os acima de 30 anos. Uma historia simples, previsível e sem complicações que em nenhum momento tenta levar se levar a sério e ideal para ver em grupo, já que os protagonistas se entregam de corpo e alma e agüentam o escopo com carisma e alguns golpes.

‘Hot tub time machine’ é uma brincadeira em nome do humor, sem olhara para trás, e um pesado tributo aos 80, surpreendentemente emocionante, que não é necessariamente bem realizado ou inspirado, mas acima de tudo eficazes em convencer e que seguem os padrões visuais, narrativos e conceituais vigentes naquela época, tudo reforçado por uma excelente trilha sonora e até mesmo artistas da época, começando pelo próprio John Cusack, Crispin Glover e o mítico Chevy Chase.

O filme tira a essência da memória oitentista em pleno século 21 rematado por alguma ou outra piada escatológica, uma breve dose de reflexão amarga mas otimista sobre os amigos, o materialismo e a passagem do tempo e um escárnio para todos os amantes do cinema, no entanto, não podemos evitar um olhar doentio de cumplicidade em algum ou outro momento. Não recomendado para menores de 30 ou maiores de 40.

Nota 7

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Orações para Bobby (Prayers 4 Bobby)



Orações para a humanidade.

Estamos diante um filme baseado em fatos reais, sobre o que aconteceu a um jovem chamado Bobby Griffith e sua família, nos anos oitenta no EUA. O filme deixara frio somente alguém de pedra. Nenhum ser humano minimamente sensível poderá distanciar-se da intensidade e profundidade do drama diante de nós. Tem um equilíbrio notável, mesmo quando se torna altamente emocional. Talvez, não alcança o desenvolvimento suficiente sólido do processo que o jovem protagonista chega. Mas isso não impede de entendermos, pelo menos em essência, a razão para o clímax trágico do filme.

A mãe de Bobby, interpretada pela sempre notável Sigourney Weaver, é uma boa senhora evangélica fundamentalista que não pode assimilar a verdade sobre seu filho homossexual. A partir desse momento, o drama cresce, até a tragédia. E a tragédia cede lugar à descoberta, de transformação e solidariedade.

Se o espectador tem convicções religiosas, o filme será desnudante. Se não, pelo menos, quem assistir será levado a uma fronteira que nosso tempo exige que se cruze sem mais delongas. O limite para a aceitação incondicional das pessoas como elas são e não como gostaríamos que fossem. E, sendo como são, podem chegar a serem felizes sem fazer sem prejudicar alguém.

Se um dos motivos do filme era remover consciências, fazer pensar, deixar marcas, ele é bem sucedido. E nos fazem desejar que o dia que a aceitação, a compreensão, o amor no sentido mais pleno da palavra, seja possível que historias como essa não se repitam. Faz-nos querer, e quanto, um mundo verdadeiramente humano, onde ninguém é excluído e humilhado pela razão simples e inexorável de ser o que é.




Nota 7